O sol nascia vermelho, como se o céu sangrasse em antecipação. Ezequiel já estava na clareira quando Jorge acordou, duas espadas de madeira idênticas encostadas numa árvore. Não havia mais diferença de tamanho. As lâminas eram iguais agora — pesadas, brutas, prontas para machucar de verdade.
— Hoje não tem pell. Não tem círculo no chão. Hoje é você contra mim — disse Ezequiel, voz baixa e sem emoção. — Sparring. Regras simples: primeiro a cair perde a rodada. Sem piedade. Sem parar pra chorar. Se sangrar, continua. Entendido?
Jorge pegou a espada. As mãos calejadas mal sentiam o peso. Ele assentiu, mas o coração batia forte demais.
— Entendido.
Ezequiel assumiu posição: pés afastados, guarda média, olhos fixos no garoto como se ele fosse uma presa.
— Ataca primeiro. Mostra o que aprendeu.
Jorge respirou fundo. Lembrou das sequências: corte direito, esquerdo, estocada. Avançou rápido, girando o corpo para ganhar força. A lâmina desceu em diagonal.
Ezequiel desviou com um passo lateral mínimo, contra-atacou com a vara de madeira na coxa de Jorge — um tapa seco que fez a perna dobrar.
— Lento. Previsível. De novo.
Jorge rangeu os dentes, ignorou a dor latejante. Atacou outra vez: estocada reta na altura do peito. Ezequiel bloqueou com facilidade, girou o pulso e acertou o ombro de Jorge com força controlada. A madeira estalou contra o osso. Jorge cambaleou para trás.
— Guarda alta! Você deixa o flanco aberto como se quisesse morrer!
Jorge recuperou o equilíbrio, olhos ardendo.
— Eu não vou morrer hoje.
— Então, prove.
Eles continuaram. Rodada após rodada. Jorge atacava com uma raiva crescente; Ezequiel defendia, contra-atacava, corrigia com pancadas. Cada erro vinha com dor: braço, costela, coxa. Jorge caiu três vezes na primeira hora. Levantou quatro.
No meio da manhã, Ezequiel parou.
— Chega de brincar. Agora eu vou te ensinar o que realmente mata um dragão.
Ele pegou um graveto e desenhou na terra duas formas distintas:
Primeiro: um corpo robusto, ereto, braços grossos como troncos, cabeça grande com chifres curtos, sem cauda. Postura quase humanóide, como um orc grotesco coberto de escamas.
— Esse é o guerreiro. Os mais fortes deles. O Chamam de grotescos entre os que sobrevivem pra contar. Sem cauda, equilíbrio perfeito em duas patas. Força bruta. Escamas grossas como placas de ferro. Lento, mas se te pegar, esmaga ossos como gravetos.
Depois, ao lado: forma mais alongada, quatro patas, cauda longa e espinhosa, pescoço flexível.
— Esses são os mais fracos… mas não se iluda. rastejantes. Ágeis. Andam em quatro patas, correm como feras. A cauda chicoteia, derruba, enrosca. São os que atacam em matilhas ou emboscam.
Jorge se agachou, estudando os dois desenhos.
— E a fraqueza? É a mesma pros dois?
Ezequiel assentiu devagar.
— Sempre a mesma: decapitação. Corte a cabeça e o corpo cai. Sem cabeça eles morrem na hora. Mas o jeito de chegar lá muda. Nos grotescos, o pescoço é curto, protegido por camadas de músculo e escamas. Você precisa forçar eles a baixar a cabeça — distrair, cansar, atacar de lado. Nos rastejantes, o pescoço é longo e exposto quando correm ou atacam. Mas eles se movem demais; você tem que prever o giro, o salto. Um golpe limpo no momento certo.
Ele apagou os desenhos com o pé.
— Minha espada corta qualquer coisa facilmente devido o metal usado nela. Mas se eu usasse uma espada comum ainda seria capaz de decapitar um deles, porque não se trata apenas de esforço, mas sim de técnica e muita precisão;
Ezequiel pegou uma tocha velha, acendeu na fogueira próxima e a girou devagar.
— Vamos simular que eu sou o dragão. O Fogo vem da boca. Desvie e mire no pescoço imaginário. Lembre-se: pros rastejantes, golpe de baixo pra cima. Pros grotescos, de cima pra baixo, com força total.
Ezequiel avançou com a tocha baixa, simulando bafo flamejante. Jorge pulou para o lado, sentiu o calor roçar o braço. Contra-atacou com a espada de madeira, mirando alto onde estaria o pescoço — acertou o ar.
— Mais rápido. O fogo não espera.
Segunda tentativa. A Tocha veio alta. Jorge rolou no chão, levantou e acertou um corte ascendente imaginário no pescoço.
Ezequiel assentiu uma vez.
— Melhor.
O sparring continuou até o meio-dia. Jorge sangrava do lábio (um golpe que escapou da guarda), tinha um hematoma roxo no braço, mas não parava. Ezequiel aumentava a velocidade aos poucos, alternando simulações: às vezes lento e pesado, às vezes rápido e baixo.
Numa rodada, Ezequiel fingiu um golpe alto e lento. Jorge baixou a guarda por instinto — erro fatal. A espada de madeira acertou sua costela com força. Jorge caiu de joelhos, o ar saiu dos seus pulmões em um gemido.
— Levanta — ordenou Ezequiel.
Jorge ficou ali, cabeça baixa, mão na costela.
— Eu… não consigo mais.
Ezequiel se aproximou com a espada ainda na mão.
— Levanta o treinamento ainda não acabou. Agora.
Jorge ergueu o rosto. Lágrimas misturadas com sangue e suor.
— Por quê? Por que você me força tanto? Eu não sou você!
Ezequiel agachou na frente dele, voz baixa mas cortante:
— Porque você me disse uma vez que queria ficar mais forte. Seus pais não desistiram de você. Eles morreram lutando. Se você parar agora, você vai trair a memória deles e a si mesmo. As palavras acertaram como uma lâmina. Jorge apertou a espada com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Levantou devagar. Posicionou de novo.
— De novo.
Ezequiel atacou — simulando os grotescos, lento mas poderoso. Jorge desviou, girou e contra-atacou com um golpe descendente forte, mirando o pescoço imaginário curto e grosso.
A lâmina de madeira acertou o ombro de Ezequiel — com um golpe limpo, forte, como se estivesse cortando uma cabeça.
Silêncio. Ezequiel baixou a espada devagar. Tocou o ombro onde havia sido atingido.
— Bom golpe.
Jorge ofegava, olhos arregalados.
— Eu… te acertei.
— Acertou. Continue.
Eles pararam ao entardecer. Jorge sentou no chão, exausto.
— Vingança é uma palavra bonita — disse Ezequiel, olhando para o horizonte. — Mas ódio cego mata mais que um dragão. Você quer matar todos eles? Ótimo. Mas faça com cabeça fria. Mire no pescoço. Sempre.
Saiba qual casta você enfrenta antes de atacar. Senão você vira monstro igual a eles.
Jorge limpou o sangue, voz rouca:
— Eu não quero ser monstro. Quero justiça. Pelos meus pais. Por todo mundo que perdeu alguém.
Ezequiel ficou em silêncio por um momento.
— Justiça é mais difícil que vingança. Mas é o que separa você deles. Lembre disso.
Naquela noite, Jorge não sonhou com morte. Sonhou com pescoços expostos dos dragões e uma lâmina subindo rápido. Acordou sem gritar.
Pela primeira vez, sentiu que a raiva não o consumia.
Ela o afiava.