Semanas haviam passado como um borrão. O corpo de Jorge não era mais o mesmo: ombros mais largos, braços definidos por músculos novos e doloridos, mãos calejadas que mal sentiam os arranhões das árvores. Ele corria sem cair, nadava contra a corrente sem engolir metade do rio, carregava pedras sem dobrar as costas. Mas Ezequiel sabia que aquilo era só o começo. O corpo aguentava. A mente ainda tremia. E agora era hora de colocar uma arma na mão dele.
Ao amanhecer do trigésimo dia, Ezequiel esperava Jorge na clareira com duas espadas de treino: madeira dura, pesada, com cabo enrolado em couro cru. Uma para cada um. A lâmina de Jorge era um pouco mais curta, mas ainda assim parecia enorme nas mãos do garoto.
— Pega — disse Ezequiel, jogando a espada para ele.
Jorge a pegou no ar, mas o peso o fez recuar um passo. A madeira era áspera, fria, e o equilíbrio estranho. Ele girou o pulso uma vez, tentando imitar os movimentos que via Ezequiel fazer com a espada verdadeira.
— Isso pesa mais que a pedra que eu carregava — murmurou.
— Porque é uma arma, não um brinquedo. Se não aguentar isso, nunca vai aguentar o que vem depois.
Ezequiel apontou para um tronco grosso amarrado verticalmente entre duas árvores — o pell, como ele chamava. Marcas antigas de cortes cobriam a casca.
— Começa aí. Golpes básicos. Corte descendente da direita, da esquerda, estocada reta, guarda alta, guarda baixa. Repete até eu mandar parar.
Jorge se posicionou, pés afastados como Ezequiel havia ensinado nas corridas. Ergueu a espada. O primeiro golpe veio fraco. A lâmina de madeira bateu no tronco com um som surdo, sem força.
Ezequiel cruzou os braços.
— De novo. Mais forte. Como se o tronco fosse o dragão que matou sua mãe.
Os olhos de Jorge escureceram. Ele girou o corpo, transferiu o peso da perna de trás para a frente e acertou com tudo. A madeira rachou levemente a casca. Dor subiu pelo braço, mas ele não parou.
Horas se passaram. O sol subiu alto, desceu devagar. Jorge batia. Suor escorria nos olhos, misturando com poeira. Bolhas surgiram nas palmas, estouraram, sangraram. Ele parava só para respirar, depois voltava.
— Guarda alta! — gritava Ezequiel. — Braço esticado, não dobrado! Você quer que o dragão corte seu braço fora?
Jorge ajustava. Errava. Ajustava de novo.
No fim da tarde, Ezequiel desenhou um círculo no chão com a ponta da própria espada de treino.
— Agora footwork. Fica dentro do círculo. Eu ataco devagar com vara. Você desvia, avança, recua. Sem sair da linha. Se pisar fora, começa tudo de novo.
A vara veio primeiro na cabeça. Jorge desviou para o lado, tropeçou, pé direito saiu do círculo.
— De novo.
Segunda tentativa. Vara na perna. Jorge pulou para trás — saiu do círculo.
— De novo.
Terceira. Quarta. Décima. Jorge ofegava, pernas tremendo.
— Isso é impossível! Como eu vou lutar se não posso nem me mexer direito?
Ezequiel parou a vara no ar.
— Os dragões não te dão espaço. Eles te encurralam. Te esmagam. Se você não conseguir se mover dentro de um círculo pequeno, morre em campo aberto. De novo.
Jorge rangeu os dentes. Voltou ao centro. Dessa vez, quando a vara veio, ele desviou com o tronco, avançou um passo dentro do círculo, recuou. Ficou dentro.
Ezequiel assentiu uma vez — o maior elogio que dava.
Dias viraram rotina cruel. Manhã: pell até os braços arderem. Tarde: footwork e sequências (corte alto, estocada baixa, giro, guarda). Noite: Ezequiel corrigia postura com pancadas leves na vara — no ombro, na coxa, no pulso. Cada erro doía.
Uma noite, Jorge acordou gritando. Sonhara com o dragão de novo: a garra erguida, o pai caindo, a mãe esmagada. Ele se sentou de repente suando frio e peito arfando.
Ezequiel já estava acordado, sentado do outro lado da fogueira.
— De novo? — perguntou, voz baixa.
Jorge assentiu, abraçando os joelhos.
— Eu vejo eles toda noite. Mortos. E eu… eu só olhando.
Ezequiel jogou mais lenha no fogo.
— Usa isso. Amanhã, quando bater no pell, imagina que é a cabeça daquele dragão. Quando desviar da vara, imagina que é a garra vindo pra te pegar. Não fuja do sonho. Enfrenta ele acordado.
Na manhã seguinte, Jorge foi diferente. Quando Ezequiel mandou começar no pell, o garoto não hesitou. Golpe após golpe, com raiva crua. A madeira rachou fundo. Ele não parou quando as mãos sangraram de novo. Continuou até o tronco ficar marcado como se tivesse sido atacado por um machado de guerra.
Ezequiel observou em silêncio. Depois, pela primeira vez, entregou a espada de treino sem jogar.
— Hoje você vai tentar uma sequência completa sem parar. Corte direito, esquerdo, estocada, giro, guarda alta. Sem erro.
Jorge respirou fundo. Posicionou. Executou.
Corte. Esquerdo. Estocada. Giro perfeito. Guarda alta impecável.
Silêncio.
Ezequiel deu um passo à frente.
— De novo. Mais rápido.
Jorge repetiu. Mais rápido. Mais fluido.
Na quinta repetição, Ezequiel atacou de surpresa com a vara — um golpe lateral na cabeça. Jorge desviou instintivamente, girou o corpo e contra-atacou com a espada de madeira, parando a lâmina a centímetros do ombro de Ezequiel.
Os dois ficaram imóveis. Respiração pesada.
Jorge baixou a espada devagar, olhos arregalados.
— Eu… eu consegui.
Ezequiel não sorriu, mas havia algo diferente na voz.
— Conseguiu não morrer nessa. É um começo.
Ele embainhou a própria espada de treino (um gesto simbólico, pois não tinha bainha de verdade).
— Amanhã começamos o sparring de verdade. Espada contra espada. Se você cair, eu não te ajudo a levantar. Se chorar, eu não escuto. Entendido?
Jorge assentiu, suor pingando do queixo, mas olhos firmes.
— Entendido.
Ele olhou para as próprias mãos — calejadas, machucadas, mas fortes. Depois para o pell marcado. Depois para as estrelas.
Pela primeira vez em meses, não sentiu só dor ao lembrar dos pais.
Sentiu promessa.
Ezequiel se afastou para vigiar o perímetro, mas antes de ir, murmurou baixo o suficiente para Jorge ouvir:
— Eles estariam orgulhosos. Continue assim, garoto.
Jorge não respondeu. Apenas apertou o cabo da espada de madeira.
E sorriu.
A lâmina de madeira não era mais um peso.
Era o começo de uma jornada.