O Som do CArvalho e o cheiro do Medo
O sol de Aranda sempre foi um mentiroso. Ele banhava as casas de pedra e telhado de palha com uma luz âmbar que prometia segurança, enquanto, no horizonte, as torres de vigia eram os únicos dentes que restavam em uma boca que já não conseguia morder. Jorge, aos quatorze anos, ainda acreditava na mentira do sol.
Naquela tarde, o ar cheirava a resina de pinho e pão recém-assado. Jorge girou sua espada de madeira, sentindo o peso do carvalho em seu pulso. Não era apenas um brinquedo; era um símbolo. Seu pai, Darius, o melhor carpinteiro da região, havia passado três noites detalhando a espada e o escudo circular que Jorge ostentava no braço esquerdo.
— Você está cercado, Comandante! — gritou Lucas, um menino um pouco mais baixo, mas com a energia de um lobo. Ele e mais três garotos brandiam cabos de vassoura, movendo-se em círculos ao redor de Jorge.
Jorge sorriu, ajustando a alça de couro do escudo. — Um soldado de Aranda nunca está cercado, Lucas. Ele está apenas em um ambiente rico em alvos.
Os meninos riram e avançaram. O som da madeira batendo contra madeira preenchia o pátio central. Jorge movia-se com uma agilidade que não vinha apenas da brincadeira, mas da observação silenciosa dos guardas que patrulhavam os muros. Ele admirava a postura deles, a armadura de couro batido, o respeito que impunham. Ser um soldado era a única forma de honra que ele compreendia. Em sua mente, os dragões eram lendas distantes, monstros que os muros — aqueles gigantes de pedra de dez metros de altura — mantinham no reino dos pesadelos, longe da realidade.
— Jorge! — a voz de sua mãe, Eliza, cortou a batalha imaginária. Ela estava à porta da casa, limpando as mãos no avental enfarinhado. — Já chega de salvar o mundo por hoje. Seu pai quer que você o ajude com a entrega de algumas vigas na ala sul antes do jantar.
— Só mais cinco minutos, mãe! — implorou Jorge, enquanto bloqueava um golpe de Lucas.
— Agora, Jorge. A educação que lhe damos não serve apenas para ler livros, mas para saber quando o trabalho chama.
Relutante, Jorge baixou a espada. Ele se despediu dos amigos com promessas de uma revanche ao amanhecer. Enquanto caminhava em direção à oficina do pai, ele passou pela praça principal. Viu os soldados reais conversando, rindo alto enquanto poliam suas lanças. Eles pareciam invencíveis. Como algo poderia atravessar aquelas pedras milenares?
Na oficina, o som da plaina de Darius era um ritmo constante. O homem era um gigante de músculos cansados e olhos gentis. Ele olhou para o filho e apontou para um monte de tábuas de cedro.
— A disciplina é a primeira armadura de um homem, Jorge — disse Darius, sem parar o trabalho. — Se você não consegue cuidar da madeira que sustenta o teto dos seus vizinhos, nunca terá o foco necessário para segurar uma espada de aço.
— Eu sei, pai. Mas os soldados... eles dizem que os ataques no norte estão aumentando.
Darius parou a plaina. Um brilho de preocupação, rápido como um relâmpago, cruzou seu rosto antes de ser substituído pela calma habitual. — O norte é longe, filho. Temos os muros. Temos os homens. Agora, pegue a outra ponta dessa viga.
Foi então que o mundo parou de respirar.
O primeiro sinal não foi um som, mas uma ausência dele. Os pássaros no telhado da oficina silenciaram instantaneamente. O vento parou de soprar. Jorge sentiu a pressão nos ouvidos mudar, como se a própria atmosfera estivesse sendo comprimida por algo imenso.
Então, veio o tremor.
Não foi um abalo sísmico comum. Foi uma vibração profunda, um batimento cardíaco que veio debaixo da terra e subiu pelas solas das botas de Jorge, fazendo seus dentes vibrarem. Na prateleira, as ferramentas de Darius começaram a dançar até caírem no chão com um barulho metálico ensurdecedor.
— Pai? — a voz de Jorge saiu fina, desprovida da coragem que tinha minutos atrás.
Darius não respondeu. Ele largou a plaina e caminhou até a janela que dava para o muro norte. Seus olhos se arregalaram.
— Por Deus... — sussurrou o carpinteiro.
Um grito, agudo e carregado de um horror absoluto, ecoou da praça principal. Depois outro. E mais um. O som da paz sendo estraçalhada era composto por clamores de "Eles estão aqui!" e "Os muros não seguraram!".
— Jorge, corra para casa! — Darius gritou, agarrando o machado de lenha que ficava encostado na porta. — Pegue sua mãe e vá para o porão! Agora!
Jorge saiu da oficina e tropeçou no caos. A vila que era um quadro de tranquilidade agora era um borrão de rostos distorcidos pelo pânico. Ele viu os soldados — os mesmos que riam minutos atrás — correndo em direção ao muro norte com as mãos trêmulas nas armas.
Uma sombra imensa cobriu a praça. Jorge olhou para o lado e seu coração quase parou. Uma criatura, um hibrido de homem e réptil com chifres, pairava ao lado da torre de vigia. Com um golpe de suas garras, a criatura destruiu a base da torre como se fosse feita de palha.
— JORGE! — Eliza surgiu na multidão, o rosto manchado de lágrimas. Ela o alcançou e o abraçou, um abraço que fedia ao medo que estava no ar. — Onde está seu pai?
— Ele mandou a gente ir pro porão! — Jorge gritou, tentando se desvencilhar do pânico.
Enquanto corriam, a primeira explosão de fogo atingiu a estalagem ao lado. O calor foi tão intenso que Jorge sentiu os pelos do braço chamuscar. No meio da fumaça, ele viu um dos dragões no meio da rua. Tinha dois metros e meio de altura, pele escamosa verde-escura e olhos que brilhava. Não era um animal; era um guerreiro. Vestia tiras de couro e empunhava um mangual de metal negro.
O monstro soltou um rosnado que vibrou no peito de Jorge. A criatura deu um passo à frente, esmagando o corpo de um aldeão caído sob suas garras. Jorge travou. O escudo de carvalho em seu braço parecia agora uma folha de papel diante daquele titã.
— Mãe... — sussurrou Jorge.
O dragão ergueu a arma, os dentes sujos de sangue brilhando sob a luz dos incêndios. O tempo pareceu dilatar. Jorge viu cada detalhe: a fumaça saindo das narinas do monstro, o medo nos olhos de Eliza, a espada de madeira caída no chão. Foi ali, naquele instante de terror puro, que a infância de Jorge morreu, incinerada pelo sopro das criaturas que ele pensava serem apenas lendas.