A Primeira Quebra

Escrito por Tony

O sol mal havia nascido quando Ezequiel chutou a capa que cobria Jorge.

— Levanta. Tempo acabou.

Jorge abriu os olhos inchados, corpo doendo da caminhada anterior e da noite mal dormida no chão duro.

— Ainda tá escuro… — murmurou, voz rouca.

Ezequiel já estava de pé, enrolando a própria capa.

— Dragões não esperam amanhecer pra caçar. Nem você vai esperar. Pega essa pedra. — Ele apontou para uma rocha do tamanho de uma cabeça de criança. — Nas costas. Corre. Dez quilômetros pela trilha. Se cair, volta pro começo.

Jorge olhou a pedra, depois para Ezequiel.

— Isso é loucura. Eu mal consigo andar direito.

— Loucura é achar que vai matar dragão com corpo mole e mente fraca. Levanta. Agora.

Jorge se ergueu devagar, músculos protestando. Colocou a pedra nas costas — o peso o curvou imediatamente. Ezequiel começou a andar na frente, passo firme. Jorge seguiu, tropeçando nos primeiros metros.

Os primeiros dias foram inferno puro.

Corridas com peso. Escaladas em árvores altas até os braços tremerem e os dedos sangrarem. Natação em rios gelados ao amanhecer — Ezequiel jogava Jorge na água sem aviso.

— Nade até a outra margem. Se afogar, problema seu.

Jorge engolia água, tossia, voltava chorando de frio e raiva.

— Por quê? Por que isso tudo? Eu não pedi pra ser torturado!

Ezequiel respondia sempre o mesmo, voz sem emoção:

— Porque seu corpo é fraco. Porque sua mente ainda chora pelos mortos. E dragão não perdoa fraqueza. Se você não aguentar isso, não aguenta nada.

À noite vinham os exercícios mentais — o mais cruel de todos.

Ezequiel fazia Jorge sentar de frente para a fogueira, olhos fixos nas chamas.

— Fica quieto. Não fala. Não se mexe. Enfrenta o que tá na sua cabeça.

Jorge tentava. Mas as imagens voltavam: o dragão arrancando a mãe das costas, o pai caindo sem vida, o sangue no chão. Ele começava a tremer, lágrimas escorrendo silenciosas.

Na terceira noite, ele quebrou.

— Eu não aguento mais! — gritou, levantando de repente. — Toda vez que fecho os olhos eu vejo eles! Mortos! Por minha causa! Eu devia ter feito alguma coisa!

Ezequiel não se moveu. Só falou baixo:

— Senta. De novo.

— Não! Você não entende! Eles morreram me protegendo e eu só fiquei olhando!

Ezequiel se aproximou devagar, agachou-se na frente dele. Pela primeira vez, tirou o capuz parcialmente — Jorge viu cicatrizes antigas no rosto, olhos cansados que pareciam carregar séculos.

— Eu entendo. Perdi um irmão por causa da minha fraqueza. Não fiz nada a tempo. A culpa não vai embora. Mas ela pode virar combustível. Ou te destruir. Escolha.

Jorge soluçou, punhos cerrados.

— Como você escolheu?

— Eu escolhi continuar. Mesmo que doesse. Mesmo que doesse todo dia. Porque parar seria trair quem morreu por mim.

Silêncio longo. Jorge respirou fundo, trêmulo. Sentou de novo. Olhou as chamas. Chorou quieto, mas não fugiu.

Semanas passaram. O corpo de Jorge mudou primeiro: ombros mais largos, mãos calejadas, pernas que aguentavam o peso sem dobrar. A respiração ficou mais funda. Ele corria os dez quilômetros sem cair. Escalava sem pedir ajuda. Nadava contra a corrente.

Mas a mente ainda lutava.

Numa manhã chuvosa, Ezequiel o fez carregar dois baldes cheios de pedras rio acima, contra a correnteza. Jorge escorregou, derrubou tudo. Ficou de joelhos na água gelada, cabeça baixa.

Ezequiel parou na margem.

— Levanta.

Jorge balançou a cabeça.

— Eu não consigo… Eu nunca vou ser forte o suficiente.

Ezequiel desceu até a água, pegou um dos baldes e colocou nas costas de Jorge sem dizer nada. Depois o outro.

— Você não precisa ser forte o suficiente hoje. Precisa ser forte o suficiente pra tentar de novo. Amanhã. E depois de amanhã. Até não precisar tentar mais.

Jorge ergueu os olhos, água da chuva misturando com lágrimas.

— E se eu nunca chegar lá?

Ezequiel olhou para ele por um longo momento.

— Então pelo menos você morreu tentando. Melhor que morrer olhando.

Jorge apertou os dentes. Levantou. Passo após passo, subiu o rio com os baldes. Caiu mais duas vezes. Levantou mais duas.

Naquela noite, pela primeira vez, ele sentou em frente à fogueira sem chorar. Olhou as chamas e não fugiu das memórias. Apenas respirou.

Ezequiel observou de longe, sem falar. Sabia que a primeira fase estava quase terminada.

O corpo estava pronto para a espada.

A mente… estava começando a se curar com raiva em vez de desespero.