Cinzas e Estrelas

Escrito por Tony

O sol já morria atrás das colinas quando eles deixaram as ruínas fumegantes de Vale da Névoa para trás. O ar ainda cheirava a madeira queimada e carne podre. Mais dragões podiam aparecer a qualquer momento — Ezequiel sabia disso melhor do que ninguém. Por isso não paravam. Caminhavam rápido, em silêncio.

Jorge seguia atrás, passos pesados, olhos fixos no chão. Não chorava mais. Não falava. Apenas andava, como se o corpo continuasse por teimosia enquanto a mente ainda estava ajoelhada entre os corpos dos pais.

Ezequiel respeitava o silêncio. Já vira muitos garotos assim. Alguns quebravam. Outros endureciam. Ele não sabia ainda em qual categoria Jorge cairia.

Quando a noite engoliu o céu, eles pararam numa clareira protegida por pinheiros altos. Ezequiel acendeu uma fogueira com gestos rápidos e precisos — gravetos, faísca de pederneira, chama. Depois desapareceu entre as árvores sem dizer uma palavra. Voltou meia hora depois com dois coelhos pendurados no cinto e um faisão nas costas.

Jorge observava tudo sem expressão. Quando Ezequiel começou a esfolar os animais com uma faca curta, o garoto finalmente falou, voz rouca de tanto gritar mais cedo:

— Isso… é comida de verdade?

Ezequiel nem ergueu os olhos.

— É o que tem. Come ou morre de fome. Escolha rápida.

A carne assou devagar, pingando gordura na brasa. O cheiro era forte, selvagem, diferente de tudo que Jorge já provara na vila. Ele pegou o pedaço que Ezequiel estendeu sem questionar de que animal era. Mordia com raiva, como se mastigar pudesse engolir a dor. Engolia sem sentir o gosto direito. Só fome. E vazio.

Depois de um tempo, com a barriga cheia pela primeira vez desde o pesadelo, Jorge limpou a boca com a manga suja e olhou para o homem do outro lado da fogueira.

— Qual é o seu nome?

Ezequiel espetou outro pedaço de carne no graveto, girando devagar.

— Ezequiel.

Silêncio. As chamas crepitavam.

Jorge insistiu, voz baixa mas firme:

— De onde você é?

O guerreiro ergueu os olhos para o céu estrelado, como se procurasse uma resposta lá em cima.

— De muito longe.

Jorge franziu a testa.

— Do céu?

Ezequiel soltou um riso curto, seco, sem humor.

— Do nada você virou tagarela, hein?

Jorge baixou a cabeça, envergonhado, mas logo ergueu de novo, olhos brilhando com algo novo — não só dor, mas uma faísca de teimosia.

— Desculpa… eu só… eu preciso saber. Você matou aqueles dragões como se fossem nada. Ninguém faz isso. Ninguém.

Ezequiel ficou quieto por um longo momento. Depois suspirou, voz grave:

— Tudo bem. Sim, digamos que vim do céu. Esse mundo… tem muito mais camadas do que você imagina, garoto. Camadas que sangram.

Jorge se inclinou para frente, esquecendo o frio que subia pelas costas.

— Como você veio parar aqui? Por quê?

Ezequiel cravou o olhar nas chamas. Quando falou, a voz saiu pesada, como se cada palavra doesse:

— Muito tempo atrás, no meu mundo, houve uma guerra. Um dos meus irmãos… se rebelou. Contra tudo. Contra nossa família, contra o equilíbrio. Lutamos por séculos. No final, vencemos. Expulsamos ele. Prendemos ele. Mas nada voltou a ser como antes. Eu… não encontrei mais meu lugar lá. Abdiquei de tudo. Viajei. Caí aqui. Pensei que enfim tinha achado paz.

Ele fez uma pausa. A fogueira estalou alto.

— Me enganei. Uma bruxa chamada Lilith encontrou fragmentos do conhecimento do meu povo. Usou para o mal. Criou o que vocês chamam de dragões. Por anos eu caço essas coisas. Meu único objetivo agora é chegar até ela. E acabar com isso de uma vez. Não vou deixar que o que destruiu meu mundo destrua o de vocês também.

Jorge ficou boquiaberto, a respiração curta.

— Então… os dragões… não são daqui?

— Não. São aberrações. Armas vivas.

O garoto olhou para a espada encostada na pedra ao lado de Ezequiel — lâmina negra, sem reflexo, como se absorvesse a luz.

— Eu vi você matar aquele dragão com um golpe só. Todo mundo diz que a pele deles é indestrutível. Que precisa de exércitos inteiros pra derrubar um. Como você conseguiu?

Ezequiel tocou o cabo da espada com os dedos.

— Essa lâmina não é desse mundo. Forjada com um metal que corta qualquer coisa. Escamas, ossos, magia… tudo. Não tem defesa contra ela.

Jorge engoliu em seco. Seus punhos se fecharam.

— Eu quero ser como você. Quero aprender. Quero matar eles. Um por um. Pelos meus pais. Por todo mundo que eles mataram hoje.

Ezequiel ergueu uma sobrancelha.

— Não fale besteira, garoto. Você tem catorze anos. Amanhã te levo pra vila mais próxima. Tem muralhas. Tem gente. Tem segurança.

Jorge explodiu. Levantou de repente, voz tremendo de raiva:

— Segurança?! SEGURANÇA?! Eu vivi achando que minha vila era segura! Muros altos, soldados fortes, “nada vai acontecer”… e olha o que sobrou! Cinzas! Meus pais mortos na minha frente! Se me deixar numa vila qualquer, você tá me condenando à mesma morte! Eu não quero me esconder! Eu quero LUTAR!

Ezequiel não se moveu. Só olhou para ele, olhos escondidos nas sombras do capuz.

— Você acha que lutar é fácil? Que é só raiva e uma espada? Eu vejo garotos como você todo dia. Cheios de fogo. Depois viram cinzas. Literalmente.

— Então me ensina! — Jorge gritou, lágrimas voltando, mas agora misturadas com fúria. — Me ensina a não virar cinza! Me ensina a matar eles antes que eles me matem! Você mesmo disse: esse mundo tá sangrando. Se você não me ensinar, quem vai? Eu não tenho mais ninguém!

Silêncio pesado. A fogueira crepitava entre eles.

Ezequiel baixou a cabeça por um instante. Lá no fundo, ele sabia que o garoto estava certo. Sempre andara sozinho. Sempre fora assim: matar dragões, seguir em frente, não se apegar. Mas agora… agora tinha alguém olhando para ele como se fosse a última esperança.

Ele respirou fundo.

— Treinar você vai ser um peso. Vou ter que me preocupar com você. Comer menos pra te dar comida. Dormir menos pra te vigiar. E se você morrer… a culpa vai ser minha.

Jorge se aproximou, voz baixa mas firme:

— Se eu morrer, vai ser lutando. Não fugindo. Não escondido atrás de muros que caem.

Ezequiel ficou em silêncio mais um tempo. Depois pegou a espada e a cravou no chão entre eles, lâmina brilhando à luz do fogo.

— Amanhã começa. Ao nascer do sol. Se você cair, eu não te levanto. Se chorar, eu não consolo. Se desistir… eu te abandono. Entendido?

Jorge assentiu devagar, olhos fixos na lâmina.

— Entendido.

Ezequiel se levantou, virando as costas para o fogo.

— Então durma. Porque amanhã você vai desejar nunca ter pedido isso.

Jorge se deitou perto da fogueira, enrolado na capa que Ezequiel jogou para ele. Olhou as estrelas por um longo tempo. Não dormiu fácil. Mas pela primeira vez desde o massacre, sentiu algo além de dor.

Sentiu propósito.

E raiva.

E esperança minúscula, afiada como uma lâmina.